A Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis (Coopamare), reconhecida nacionalmente como a cooperativa de reciclagem mais antiga em atividade no Brasil, foi notificada pela Prefeitura de São Paulo a deixar o espaço ocupado há mais de três décadas sob o Viaduto Paulo VI, no bairro de Pinheiros.
A notificação administrativa, datada de 31 de março, fundamenta-se em um auto de fiscalização emitido em 18 de março. O documento alega que a ocupação da área de 675 metros quadrados sob o viaduto é considerada ilegal, sendo classificada como invasão. De acordo com o teor da notificação, foi concedido à Coopamare um prazo de 15 dias para apresentação de defesa, a qual foi protocolada em 2 de abril.
Em 2023, a autorização de uso concedida anteriormente à cooperativa foi revogada pela administração municipal. O motivo alegado foi a necessidade de proteger o bem público e a identificação de suposto risco de incêndio no local. A prefeitura foi procurada para comentar o caso, porém, até o encerramento das apurações, não havia respondido aos questionamentos.
Carla Moreira de Souza, presidente da Coopamare, relatou que, à época da revogação, a cooperativa já havia formalizado sua defesa e buscou estabelecer diálogo com as autoridades municipais. Em suas tratativas, a prefeitura teria assumido o compromisso de encontrar um local apropriado para a transferência das atividades da entidade.
“Estamos aqui há 37 anos. Aceitamos ir para outro lugar, desde que seja um galpão onde tenhamos condições de continuar trabalhando. A prefeitura nos oferece outro viaduto, mas o espaço é pequeno e não dá para levar nossas coisas", disse.
Carla enfatizou ainda que os integrantes da cooperativa não concordam com a proposta apresentada:
"Não queremos ir para outro viaduto. Nossa expectativa hoje é a de que ela nos deixe onde estamos ou arrume um galpão, na mesma região, para podermos trabalhar em paz, com todos os direitos que temos como trabalhadores”, complementou.
Atualmente, a Coopamare é responsável pela recuperação de aproximadamente 100 toneladas de resíduos recicláveis por mês, resultado do trabalho desenvolvido por 24 cooperados e cerca de 60 catadores autônomos.
Em reação à ordem de desocupação, a Coopamare elaborou um manifesto que integra um abaixo-assinado em defesa da permanência da cooperativa no bairro de Pinheiros. O texto ressalta que o apoio à Coopamare representa o compromisso com o trabalho digno, a preservação ambiental e a promoção da justiça social.
O documento destaca o papel simbólico da entidade, construída por trabalhadores e trabalhadoras, muitos dos quais estiveram em situação de rua e encontraram na reciclagem uma alternativa para mudar de vida e contribuir para a cidade de forma honesta.
Segundo o manifesto divulgado pela cooperativa, além de gerar emprego e renda, a Coopamare presta serviço essencial à comunidade local, realizando triagem e destinação adequada dos resíduos recicláveis. O texto argumenta que esse trabalho contribui para a redução da poluição, diminui o volume de resíduos encaminhados a aterros sanitários, preserva o meio ambiente e gera economia ao poder público ao reduzir os custos de coleta de lixo.
O manifesto acrescenta que a experiência da Coopamare serve de modelo para milhares de catadores em todo o país, que se inspiraram em sua trajetória para combater o desemprego e a informalidade, promovendo a integração oficial de profissionais frequentemente marginalizados.
A Associação Nacional de Catadores/as de Materiais Recicláveis (Ancat) se manifestou publicamente em apoio à Coopamare, classificando a entidade como a primeira cooperativa do segmento no Brasil e "a história viva da organização da categoria". A associação enfatizou o papel pioneiro da Coopamare na consolidação da reciclagem com inclusão social no país. O apoio à permanência da cooperativa também foi formalizado pela Unicatadores e pelo Movimento Nacional dos Catadores(as) de Materiais Recicláveis (MNCR).