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Estudo indica risco elevado de Guillain-Barré após infecção por dengue

Estudo aponta que risco de SGB aumenta até 30 vezes nas duas primeiras semanas após infecção por dengue

17/04/2026 às 00:13
Por: Redação

Pessoas infectadas pelo vírus da dengue apresentam um aumento significativo na probabilidade de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas semanas subsequentes à infecção. A elevação do risco chega a ser 17 vezes maior nas seis semanas posteriores ao diagnóstico da doença e, dentro das duas primeiras semanas após o início dos sintomas, essa probabilidade se torna até 30 vezes mais elevada.

 

Essas conclusões resultam de um estudo elaborado por especialistas da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) em parceria com a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, publicado em periódico científico internacional. De acordo com os dados analisados, considerando uma base de 1 milhão de casos de dengue, estima-se que 36 indivíduos possam manifestar a SGB. Embora se trate de uma quantidade restrita, os autores do trabalho destacam a relevância desse número diante da repetição de epidemias em território nacional.

 

A Síndrome de Guillain-Barré é caracterizada como uma condição neurológica rara de potencial gravidade. A investigação científica ressalta que, em 2024, houve registro de 14 milhões de casos de dengue globalmente, o que evidencia a rápida disseminação mundial da enfermidade transmitida por mosquitos.

 

Para realizar a análise, os pesquisadores se debruçaram sobre três grandes bancos de dados pertencentes ao Sistema Único de Saúde (SUS): registros de internação hospitalar, notificações de infecção por dengue e relatórios de óbitos. Entre 2023 e 2024, foram detectadas mais de 5 mil internações ocasionadas por SGB, das quais 89 ocorreram logo após o aparecimento de sintomas de dengue.

 

Diante desse cenário, os cientistas enfatizam a necessidade de que as autoridades de saúde pública considerem a SGB como uma complicação possível da dengue nos protocolos de monitoramento e resposta.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

O levantamento da Fiocruz também fornece subsídios para que profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiros e neurologistas, possam suspeitar de SGB diante de pacientes que, após terem apresentado dengue nas últimas seis semanas, passem a relatar episódios de fraqueza nos membros inferiores ou sensação de formigamento.

 

Os especialistas reforçam que a identificação precoce da SGB é essencial para a melhora do prognóstico, já que os tratamentos disponíveis, como imunoglobulina ou plasmaférese, produzem melhores resultados quando administrados rapidamente.

 

“Também é importante incentivar a notificação dos casos de SGB pós-dengue ou informar a vigilância epidemiológica municipal/estadual sobre a ocorrência de doença neuro-invasiva por arbovírus”, defendem.


 

Segundo a Fiocruz, ainda não existe tratamento antiviral específico para combater o vírus da dengue. O enfoque terapêutico é direcionado para a hidratação e o suporte clínico ao paciente. Dessa forma, os pesquisadores ressaltam que as principais estratégias de prevenção continuam sendo o combate ao mosquito Aedes aegypti e a vacinação.

 

A imunização contra a dengue é apontada como capaz de reduzir expressivamente tanto a incidência da doença quanto, consequentemente, o total de casos graves, incluindo a manifestação da SGB.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Complicações neurológicas associadas à dengue e panorama nacional

 

De acordo com os especialistas da Fiocruz, o Brasil enfrenta epidemias frequentes de dengue, sendo que, em 2024, o volume de casos prováveis ultrapassou seis milhões. Embora a SGB seja considerada um evento raro, a alta incidência da doença torna significativo o número total de pacientes que podem desenvolver essa complicação, o que exige preparação adequada do sistema de saúde.

 

O estudo ressalta que a ligação entre arboviroses e quadros neurológicos graves já havia sido evidenciada durante a epidemia de Zika, em 2015 e 2016, período em que o vírus foi relacionado tanto ao aumento expressivo dos diagnósticos de SGB em adultos quanto à incidência de microcefalia em recém-nascidos. Vale destacar que dengue e Zika são doenças pertencentes à mesma família viral.

 

A SGB se caracteriza por uma resposta imunológica anormal, em que o próprio organismo passa a atacar as células nervosas periféricas, responsáveis pela conexão entre cérebro, medula espinhal e as demais partes do corpo.

 

Essa condição resulta em fraqueza muscular progressiva, geralmente iniciada nas pernas, podendo avançar para braços, face e, em quadros mais graves, afetar a função respiratória. Em situações extremas, há risco de paralisia total, o que pode exigir a utilização de aparelhos para garantir a respiração do paciente.

 

Ainda que a maioria dos casos apresente recuperação, esse processo pode demandar meses ou até anos, e há situações em que permanecem sequelas permanentes.

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