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Bombardeios de Israel destroem 129 unidades de saúde no Líbano em 45 dias

Conflito deixou 2.294 mortos, destruiu 37,8 mil moradias e obrigou mais de 1,2 milhão a fugir de suas casas

17/04/2026 às 19:34
Por: Redação

Ao longo de 45 dias de confrontos, ataques realizados por forças israelenses danificaram 129 instalações de saúde no território libanês, resultando na morte de 100 profissionais da área e ferimentos em outros 233 colaboradores do setor. O Ministério da Saúde do Líbano também reportou que 116 ambulâncias foram alvo dos bombardeios e que seis hospitais precisaram encerrar suas operações devido aos danos sofridos.

 

Em nota oficial, o escritório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) no Líbano declarou:

 

"Esses incidentes constituem uma grave violação do direito internacional humanitário e comprometem seriamente o acesso da população aos serviços de saúde."

 

O ataque a estruturas civis e de saúde é tipificado como crime de guerra pelas normas internacionais. O governo israelense justificou as ofensivas contra as unidades de saúde alegando que estas estariam sendo usadas pelo grupo Hezbollah para fins militares, ponto contestado por organizações de direitos humanos. Em Beirute, a emissão de um aviso para evacuação de dois hospitais provocou preocupação na Organização Mundial da Saúde.

 

Durante o período, os confrontos provocaram a morte de 2.294 pessoas e deixaram aproximadamente 7.500 feridos, entre eles 177 crianças mortas e 704 feridas, segundo dados provisórios fornecidos pelo Ministério da Saúde libanês no dia 17 de abril.

 

Além das perdas humanas, estima-se que pelo menos sete jornalistas tenham sido alvo de ataques israelenses nesta etapa do conflito. O Conselho Nacional de Pesquisa Científica do Líbano (CNRS) calculou que até 12 de abril, quatro dias antes do cessar-fogo, foram destruídas 37.800 unidades habitacionais. A destruição atingiu principalmente os subúrbios de Beirute e corresponde a cerca de 16% de todo o prejuízo acumulado em fases anteriores da guerra. O CNRS ressaltou que esse número reflete uma intensificação significativa da destruição em um curto espaço de tempo.

 

No dia em que foi declarado o cessar-fogo no Irã, Israel realizou um grande ataque ao Líbano, concentrando-se nas áreas densamente povoadas e nas regiões centrais da capital, onde, em cerca de dez minutos de bombardeio, mais de 300 pessoas perderam a vida.

 

O jornalista e especialista em geopolítica Anwar Assi, que conhece pessoalmente as áreas atingidas em Beirute, descreveu à imprensa que se tratam de zonas eminentemente civis.

 

"Essa área é 100% civil. Mesmo os escritórios do Hezbollah são escritórios civis. Ou seja, pela lei internacional, não podem ser atacados. O subúrbio de Beirute não é uma área militarizada. Não tinha porquê bombardear aquelas áreas", afirmou.

 

Assi, cuja família reside no Líbano, afirmou que as justificativas israelenses sobre a presença de foguetes na região não são verdadeiras.

 

"Isso dá para ver pelos prédios destruídos, que lá não tinha foguete. O único motivo dos ataques foi para forçar o deslocamento dos moradores e criar uma pressão em cima da sociedade libanesa", declarou.

 

Segundo o Ocha, ordens de evacuação em massa emitidas durante o conflito resultaram no deslocamento de mais de 1,2 milhão de pessoas, abrangendo quase 15% do território nacional.

 

Para Anwar Assi, o objetivo das ações israelenses seria gerar uma quantidade expressiva de deslocados, estimulando oposição ao Hezbollah. Contudo, ele observou que a maioria da população mantém apoio à chamada resistência, inclusive entre críticos do grupo, que rejeitam a possibilidade de conflito civil.

 

Nabih Berri, presidente do Parlamento libanês, reforçou em 17 de abril que tanto a unidade nacional quanto a paz civil são, segundo suas palavras, "uma linha vermelha" que não deve ser ultrapassada em nenhuma circunstância, advertindo que eventuais ameaças a esses princípios beneficiam os interesses israelenses.

 

O Estado de Israel afirma que suas ações têm como alvo a infraestrutura militar do Hezbollah e acusa o grupo de empregar instalações civis para operações militares, alegações que são negadas pela organização xiita.

 

Região sul do país enfrenta isolamento e deslocamento forçado

 

O governo liderado por Benjamin Netanyahu declarou que um dos objetivos das operações militares no sul do Líbano é criar uma zona desabitada até o Rio Litani, localizada a aproximadamente 30 quilômetros da fronteira entre Líbano e Israel.

 

Em 16 de abril, Netanyahu também informou que tentava assumir o controle da cidade de Bent Jbeil, que possui cerca de 30 mil moradores.

 

O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, havia afirmado em março que milhares de pessoas que fugiram do sul do Líbano não teriam permissão para retornar às suas residências situadas ao sul do Rio Litani. O deslocamento forçado de civis é igualmente classificado como crime de guerra.

 

No último dia antes do início do cessar-fogo, a última ponte sobre o Rio Litani, a Ponte de Qasmiyeh, foi bombardeada por Israel, deixando a região ao sul isolada do restante do país e interrompendo o trânsito entre Tiro e Sidon. Para viabilizar o retorno de moradores, foi erguida uma ponte provisória.

 

O libanês-brasileiro Hussein Melhem, de 45 anos, estava morando com sua esposa Cláudia Martins e suas filhas na cidade de Tiro até o início da última etapa do conflito, em 2 de março. Após o início dos combates, mudou-se para a região metropolitana de Beirute e ainda não tem previsão para retornar a Tiro.

 

"Quero voltar esta semana, mas tem que diminuir a fila um pouco porque está uma luta para voltar ao sul, tem muita gente", disse, acrescentando que não está seguro de que a trégua possa durar.

 

O especialista Anwar Assi ainda afirmou que as ações de Israel no sul do Líbano configuram uma estratégia de limpeza étnica, com o intuito de forçar a retirada de moradores e apropriar-se daqueles territórios.

 

"O objetivo principal da guerra é a expulsão das pessoas do sul do Líbano. Por isso que eles destruíram escolas, hospitais, prédios do governo e todas as unidades que poderiam dar suporte ao retorno dos civis. Eles destruíram justamente para que essas pessoas que retornassem às suas cidades não encontrassem nenhum tipo de apoio", concluiu Assi.

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