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Série documental evidencia busca de indígenas pela preservação cultural

Gente de Verdade acompanha o povo Paiter Suruí na luta por memória e identidade diante de desafios culturais.

22/04/2026 às 21:23
Por: Redação

O projeto Gente de Verdade, uma série documental composta por oito episódios de 26 minutos cada, foi selecionado por meio de chamada pública da Seleção TV Brasil. A produção, conduzida por indígenas, destaca o esforço do povo Paiter Suruí, residente na Terra Indígena Sete de Setembro, que abrange áreas de Rondônia e Mato Grosso, para manter viva a memória e a identidade cultural diante de transformações significativas ocorridas desde o contato inicial com não indígenas, registrado há pouco mais de meio século.

 

Essa iniciativa integra o grupo de obras contempladas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), com recursos oriundos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). O investimento total destinado às produções selecionadas pela chamada pública Seleção TV Brasil alcança o montante de 109.889.224,78 reais, configurando-se como o maior valor já aplicado pelo Estado brasileiro na produção de conteúdo audiovisual para a televisão pública.

 

O processo faz parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), ação do Ministério da Cultura (MinC) e da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Em fevereiro, a EBC anunciou os 39 projetos escolhidos por meio desse edital e, na linha de Sociedade e Cultura, Gente de Verdade está entre as oito produções contempladas.

 

O contexto vivido pelo povo Paiter Suruí é marcado por profundas alterações em seus costumes e práticas tradicionais. Ao longo das últimas décadas, a presença de igrejas cristãs substituiu a atuação de pajés, rituais foram deixados de lado e a língua originária Tupi Mondé deixou de ser predominante entre as gerações mais jovens.

 

A narrativa da série acompanha a trajetória de quatro personagens de idades distintas — Ubiratan, Agamenon, Celesty e Kennedy — empenhados em preservar a identidade cultural de seu povo em meio a pressões decorrentes da influência da fé cristã, do contato com a vida urbana e do avanço de tecnologias contemporâneas. O enredo propõe discussões sobre ancestralidade, pertencimento, além dos desafios de manter tradições em um cenário de modernização constante.

 

Olhar indígena e protagonismo na produção audiovisual

Gente de Verdade diferencia-se por ser conduzida por indígenas. A direção está a cargo de Ubiratan Suruí, cineasta pertencente ao povo retratado, enquanto o roteiro é assinado por Natália Tupi, que também atua como cineasta e fotógrafa indígena. A proposta é valorizar narrativas estruturadas a partir da experiência direta nos territórios, fugindo de abordagens externas ou estereotipadas.

 

Segundo Ubiratan Suruí, a série carrega como principal característica o fato de ser construída por quem vive a realidade retratada, o que confere autenticidade e protagonismo aos povos indígenas.

 

“Gente de Verdade nasce do nosso próprio olhar. Por muito tempo, as histórias sobre os povos indígenas foram contadas por outros, de fora. Aqui, não. Somos nós que contamos. Quando a gente coloca nossas próprias narrativas no centro, a gente fortalece nossa autonomia, nossa identidade e mostra a diversidade que existe entre os nossos povos. São histórias reais, de agora, longe dos estereótipos. A gente se apresenta como realmente é: povos vivos, com voz, com pensamento, com futuro — não como personagens do passado.”, ressalta.


 

O diretor destaca ainda a importância de ter uma obra indígena sendo exibida em canal público de alcance nacional, como a TV Brasil, pois isso amplia o acesso da sociedade às narrativas dos povos originários, promovendo reconhecimento, respeito e diálogo.

 

“Ver uma obra indígena sendo exibida na TV Brasil é um avanço muito importante. Por ser um canal público e de alcance nacional, abre espaço para que mais pessoas conheçam nossas histórias. Isso ajuda a criar diálogo, respeito e reconhecimento. Quando a gente ocupa esse espaço, a gente quebra a invisibilidade e faz com que o Brasil escute, de verdade, as vozes dos povos originários”, complementa Suruí.


 

Memória, espiritualidade e desafios contemporâneos

A série é guiada pelo resgate de um acervo visual produzido por um fotógrafo alemão durante o período do primeiro contato do povo Suruí com não indígenas, na década de 1970. Essas imagens, que registram momentos marcantes, tornaram-se centro de um debate. A exibição ou manipulação dessas fotografias suscita questionamentos sobre possíveis conflitos com crenças religiosas ou tradições culturais do povo, especialmente porque algumas proíbem até a menção aos mortos.

 

A presidente da EBC, Antonia Pellegrino, responsável pela coordenação da Seleção TV Brasil enquanto ocupava a diretoria de Conteúdo e Programação, avaliou que o projeto Gente de Verdade teria potencial para vencer qualquer edital, mas seus criadores optaram por inscrevê-lo especificamente no processo da TV Brasil, buscando a visibilidade proporcionada por uma emissora pública.

 

“Esse gesto reforça a relevância da comunicação pública para dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas. É um projeto potente que posiciona no centro histórias que por muito tempo foram invisibilizadas e que dá protagonismo a quem vive essas experiências. A série amplia o olhar sobre os povos indígenas com sensibilidade e profundidade, a partir da força do audiovisual em provocar reflexão e ampliar a compreensão sobre diferentes realidades”, comenta.


 

Exposição sobre o povo Paiter Suruí exibe acervo histórico

No ano anterior, o Instituto Moreira Salles (IMS) realizou em São Paulo uma mostra intitulada Paiter Suruí, Gente de Verdade, reunindo 800 imagens capturadas a partir dos anos 1970, quando câmeras fotográficas chegaram à região da Terra Indígena Sete de Setembro. A exposição oferece um panorama das histórias, tradições, afetos, cotidiano e resistência desse povo indígena, estando disponível para consulta pública no site do IMS.

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